Checagem
“As bets são a causa do endividamento recorde das famílias brasileiras.”
Circula no debate da MP 1.394/2026 e de projetos de lei que citam estudos da CNC. Diretores do Banco Central divergem publicamente sobre o peso das apostas.
Publicado 08 out 2026 · atualizado 08 out 2026
Há evidência séria de que apostar piora a inadimplência de quem aposta. Mas o endividamento das famílias já estava no patamar atual em 2021, antes do boom das bets, e parte relevante da alta recente vem de crédito caro e de uma mudança contábil — por isso “a causa” não se sustenta.
O que os dados mostram
- 01
O endividamento das famílias em relação à renda saltou de 41,8% (dez/2020) para 49,5% (dez/2021) e estava em 49,9% em jul/2026. O comprometimento de renda com dívidas chegou a 28,7%, o maior da série iniciada em 2005.
Fonte: BCB
- 02
Em 2024, o Pix enviado a empresas de apostas ficou entre R$ 18 bi e R$ 21 bi por mês, de cerca de 24 milhões de pessoas. O próprio Banco Central estima que só cerca de 15% fica com as empresas; o resto volta como prêmio.
Fonte: BCB
- 03
Estudo de Sergio Firpo (Insper) com a Stone, ainda não publicado em revista científica, encontrou inadimplência cerca de 20% maior em 12 meses entre quem começou a apostar. Os autores dizem não ter medido o efeito sobre o total do país.
Fonte: Jornal do Comércio
- 04
Segundo o Banco Central, cerca de 40% da alta da inadimplência entre dez/2024 e jun/2026 vem de uma nova regra contábil (Resolução CMN 4.966), não de novos atrasos.
Fonte: Poder360
- 05
A CNC atribui cerca de 268 mil famílias em inadimplência severa às bets, mas não publicou a metodologia completa. A própria economista da CNC diz que os juros altos seguem como principal causa da inadimplência.
Fonte: Movimento Econômico
- A favor
- Estudos com dados individuais indicam que começar a apostar está associado a mais atraso no cartão e menos acesso a crédito.
- O volume transferido para apostas é grande e concentrado em parte da população.
- Contra ou limita
- O endividamento já estava no patamar atual em 2021, antes da expansão das apostas em 2023–2024.
- Juros altos (Selic de 14,5%, rotativo do cartão acima de 400% ao ano) e crédito sem garantia pesam mais nas análises do Banco Central.
- Parte da alta da inadimplência é efeito de mudança contábil, não de novos atrasos.
- O valor transferido é bruto; a perda líquida é bem menor.
- Ainda não sabemos
- Quanto do endividamento total do país se deve às apostas: nenhum estudo publicado mediu isso de forma causal.
- O efeito das apostas em sites ilegais, que não aparecem nos dados do mercado regulado.
De onde veio a informação (6)
- 01
primáriaBanco Central do Brasil
Endividamento e comprometimento de renda das famílias — séries 29037 e 29034 (SGS)(abre em nova aba)Verificado 08 out 2026
Séries oficiais do Banco Central; valores revisados periodicamente.
- 02
primáriaBanco Central do Brasil
Nota Técnica 513/2024-BCB/SECRE — análise das transferências via Pix para empresas de apostas(abre em nova aba)Publicado 23 set 2024 · Verificado 08 out 2026
Documento do Banco Central (cópia hospedada pelo Poder360).
- 03
secundáriaJornal do Comércio
Apostar em bets aumenta inadimplência e piora acesso ao crédito, diz estudo (Jornal do Comércio)(abre em nova aba)Publicado 08 set 2026 · Verificado 08 out 2026
Reportagem sobre estudo de Sergio Firpo (Insper) e Stone, ainda não publicado em revista científica.
- 04
secundáriaPoder360
BC diz que 40% da alta da inadimplência vem de nova regra contábil (Poder360)(abre em nova aba)Publicado 24 set 2026 · Verificado 08 out 2026
Cita o Relatório de Política Monetária do BC de setembro de 2026.
- 05
secundáriaMovimento Econômico
CNC: bets drenam R$ 30 bi por mês e levam 270 mil famílias à inadimplência (Movimento Econômico)(abre em nova aba)Publicado 29 abr 2026 · Verificado 08 out 2026
Estudo da CNC (parte interessada). Metodologia completa não publicada.
- 06
secundáriaSenado Federal
Dívidas em recorde assombram as famílias brasileiras (Agência Senado)(abre em nova aba)Publicado 01 mai 2026 · Verificado 08 out 2026
Inclui dados da PEIC/CNC e entrevistas.